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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Do MASHIACH ou, de um (futuro) Rabi Desconhecido




Do MASHIACH ou, de um (futuro) Rabi Desconhecido


Por Rav Pietro Nardella-Dellova
Da Sinagoga Scuola – Beith Midrash

Creio plenamente na vinda do Mashiach e,
embora ele possa demorar, aguardo todos os dias
a sua chegada
12º Fundamento da Fé Judaica (Maimônides)


Andamos perdidos nas sombras de tantos séculos, sem direção nem contentamento, porque o sentido de Mashiach tornou-se um peso milenar e o talhe do teu reino mal pode ser reconhecido. Nos últimos milênios fizeram-no com mil faces e, sendo tantas, ninguém a conhece. Ninguém o espera e nem pode ouvir a sua voz.

Mas, os que esperam Mashiach verão quão suaves serão sobre os montes de Israel os seus pés anunciando a renovação, a Teshuvá e a Face de HaShem Sua voz que fará ouvir a paz, que anunciará o bem, que fará ouvir a plenitude e que dirá à Sião: O Eterno יהוה reina! E dirá à Judá: celebra as tuas festas e cumpre os teus votos... porque...em nossa terra e entre nós nasceu um homem, o filho de David, o Rei, e sobre seus ombros estará o reino do conhecimento, e ele será chamado o Conselheiro maravilhoso, o Guerreiro valente, o Mestre definitivo e o príncipe da paz..." Ele será a imagem e a semelhança de HaShem e nele serão soprados os Sete Espíritos do Eterno. E, com ele, o Reino será ligado à Coroa...

Quando ele vier, o Eterno se alegrará de sua Justiça, de sua Mansidão, de seu Conhecimento de Torá, de seu Cântico e de seu Halel e, nele, as obras da “creação” serão terminadas. Sob seu Reino os homens encontrarão as fontes de conhecimento, da sabedoria e da inteligência e não haverá fome sobre a terra, nem terror, nem injustiças. O cego não errará o caminho e o surdo não será privado de entendimento e ninguém será enganado, pois ele ensinará o equilíbrio e como suplantar a “árvore do aprofundamento do bem e do mal”, como vencer as inclinações para o bem e para o mal e, assim, levará ao caminho de volta à “árvore da vida”, e apontará o Temor de HaShem, a Coragem e a Força!

Então, ouviremos a voz de HaShem plena de alegria ecoando pelo espaço: “...é muito bom...” e o Eterno finalmente ficará plenamente satisfeito...

Mas, por agora, ninguém conhece o seu perfume, os seus olhos, as suas mãos, os seus cabelos, a sua barba, o seu caminhar, o seu partir do pão e do peixe, e o seu delicioso vinho. Ninguém sabe como será aquela que ele amará como esposa nem como serão seus filhos, porque ele trará em si os olhos e a música de David e a poesia e juízos de Sh’lomò, de cuja descendência nascerá. Ninguém viu, ainda, o seu sorriso, o seu modo de abençoar, o seu cântico, a sua amizade, a sua presença, o seu sangue, o seu espírito e, não obstante, ele é o desejado de todas as nações.

E por que ainda não o conhecem? Porque vêem mal, com os olhos enceguecidos da religião, das teologias e das intrigas medievais, vêem com más intenções, e por isso não enxergam; não ouvem e não escutam, porque ouvem mal, conforme as conveniências e, se o encontrassem não lhe reconheceriam. Provavelmente, o desprezariam, porque não seria grego ou romano, não seria russo nem alemão. Desprezariam porque ele seria um judeu – o melhor dos judeus! Desprezariam porque ele não nasceria em um calendário pagão, como querem os homens platônico-aristotélicos, nem seria um judeu nascido em terra estranha, como querem algumas escolas e grupos.

Desprezariam porque ele teria em um dos braços a Torá e no outro, os Nevi’im. De um lado o acompanharia Moshè rabenu; do outro, os Profetas. Desprezariam Mashiach porque o seu coração é a força dos Tehilim e a sua alma formada nas deliciosas Festas Judaicas e nas Canções que enchem nossas vidas de contentamento.

E somente aqueles que ouviram, repetidas vezes, o seu pai declamando delicadamente os versos dos Cânticos de Sh’lomo para sua terna esposa; e ouviram, também, a voz e a força dos Provérbios e da Meguilat Ester, quando estavam junto com seus irmãos, ao redor de uma mesa, iluminada pelas chamas de um Candelabro e perfumada pela delícia das Chalôt, poderiam saber como será o Mashiach.

Os outros o desprezariam e o odiariam porque na sua boca e no seu coração os Ensinamentos jamais seriam uma nova religião: mas a luz, a renovação, o azeite, o ser humano pleno que nos falta: a perfeita leitura e interpretação da vontade do Eterno יהוה: “...que os homens sejam feitos à nossa imagem e semelhança...”, superando as faces do bem e do mal, com a unção e o fogo da Ruach HaElohim!

Os homens maus, poderosos, senhores do império de ouro, prata, ferro e barro, mataram milhares de crianças judias pelos milênios, esperando que ele fosse morto – e continuam matando crianças e comendo a carne de seus filhos, com seus votos ao vento! E hoje, vestidos de Babilônia, de Roma e Edon, culpam-nos de uma cruz forjada na ignorância dos ecos do Coliseu e, insistem, que devemos morrer por ela. E em dois mil anos de necrofagia que não termina, num discurso de morte que não termina, numa procissão mórbida que não termina, em cruzadas genocidas que não terminam, em inquisições necrófilo-religiosas que não terminam, em holocaustos que não terminam, em bombas que não se calam – embriagados do nosso sangue, exigem que nos dobremos diante dos seus deuses pagãos e profetas tresloucados! Exigem que ouçamos seus missionários delinqüentes e nos dão o fel da exclusão!

E as filhas, orientais e ocidentais, desta grande prostituta, estejam ou não cobertas, vendem a ilusão in memoriam (aos pedacinhos) nas praças, nos salões alugados, nos templos de isopor, nos canais de rádio e televisão mal adquiridos, nos campos de futebol, nas capelas, nas basílicas, nas igrejas, nos terreiros, nos centros, nas encruzilhadas, nos sagrados Shopping Centers, nas Bolsas de Valores, nos chaveiros, nas lojas, nas passadas Torres Gêmeas, nas peregrinações, na estampa maledetta do dinheiro, nos porta-aviões, nos discursos vazios, nas lojas de hambúrgueres, nas árvores, nas bolinhas de natal, nas ceias de natal e no frango assado de natal e nos dias de dezembro (aliás, dezembro e novembro inteiros, porque os pedacinhos da ilusão devem mover o comércio!)

Ah, esse Rabi desconhecido, o Mashiach, se os homens o encontrassem em quaisquer lugares, certamente o desprezariam (porque não nasceu em dezembro!) porque será do sangue hebreu de Abraham, Itschak e Ya'akov, e porque seria instruído/instruindo por Moshè rabenu, e porque é o coração e o gemido de Yehoshua, dos Shoftim, dos Melajim, de David, de Sh’lomò, de Yeshayahu, de Yirmiahu, de Yejezkel, de Daniyel, de Hoshea, de Yoel, de Amós, de Ovadiá, de Yoná, de Mijá, de Najum, de Javacuc, de Tz'faniá, de Jagai, de Zejariá, de Malají e de todos os Yehudim de todos os tempos. Porque é a plenitude: a perfeita Creação/Creador; porque chora desde sempre, com gemidos de quem quer estar em Jerusalém – e ninguém pode amá-lo ou compreendê-lo se não souber amar Jerusalém, o Beit HaMikdash e a Torá!

Ah, esse Rabi, meu irmão, jamais poderia ter nascido de Atenas, em meio às festas e bacanais, porque não é filó-sofo: é a própria Sabedoria. Jamais poderia ter nascido de Roma ou de suas Províncias, em meio aos festins e orgias, porque não é jur-ista: é a própria Justiça. Somente poderá nascer em Judá, em meio às Festas de Pessach, e Shavuot, Yom Kipur e Sucot, e na alegria de um Shabat: porque ele será Shalom!

Choramos e esperamos nesta triste Galut, o tempo de seu reino. No “quatiere ebraico” da Via Olmo Perino, de Fondi, Província de Latina, na Itália, há uma antiquíssima Sinagoga que se chama Scuola, conhecida pelos italianos como Casa Degli Spiriti. Às vezes, quando caminho por aquele “quartiere” e paro no pequeno pátio florido diante da Sinagoga (ali, minha família viveu por séculos), meus olhos se enchem de luz e esperança. Enquanto fico ali, diante da Sinagoga, fora do “quartiere”, às minhas costas, exatamente atrás, ficam as três Igrejas Católicas de Fondi: Santa Maria Assunta, San Pietro e San Francesco. Mais distante, do outro lado da cidade, à minha esquerda, ficam duas Chiese Evangeliche di Fondi, e à minha direita, um grupo de muçulmanos. E eu, parado ali, sinto um calor invadir meu peito e é impossível não chorar, porque ouço das vias deste “quartiere ebraico” o clamor das vozes de centenas de judeus, levados e mortos, pelos religiosos de fora, pela sua inquisição, pelos fascistas, nazistas e outros canalhas injustos. E ouço, também, como auto-condenação, os sinos badalando incessantemente e alguma gritaria conjunta de igrejas evangélicas e vozes islâmicas.

Mas, do silêncio estranhamente respeitoso da Sinagoga, ouço a voz inconfundível de Mashiach, dizendo-me: “...o Espírito de HaShem יהוה está sobre mim, porque Ele me ungiu, para pregar aos mansos e revigorá-los: enviou-me a restaurar os chorosos de coração, a proclamar liberdade aos escravizados, e a abertura de prisão aos presos...”

Texto dedicado à memória de centenas de vidas que tombaram diante do furor bestial eclesiástico, nazista e fascista, durante os séculos no Ghetto do Lazio, Itália, cujo sangue e fé honro em cada uma das linhas da Torá. Às vozes judaicas que teimam em não calar pelos séculos e séculos até que possamos estar com Mashiach em Yerushalaim!

27 novembre 2003 – 2 kislev 5764 © copyright do autor

© Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direitopela USP. Mestre em Religião pela PUC/SP. Pós-graduado em Direito Civil e em Literatura. Bacharel em Direito e Licenciado em Filosofia. Rav na Sinagoga Scuola - Beit Midrash. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Advogado e Professor universitário.


Um comentário:

Ya'el disse...

Caro Prof. Dellova,

Emocinei-me ao ver sua "releitura do Mashiach"; digo releitura, porque nunca algo chegou tão próximo daquilo em que creio. Uma das coisas que sempre questionei foi:- como aceitar um messias com tantos rostos, tantas vozes? Vozes estas, muitas vezes contraditórias, equivocadas; e sua mensagem, num misto de nostalgia, poesia e alerta, trouxe à mim consciência de um Mashiach transcendentemente real.

Osana