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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

RUTH, a moabita, e o ESPÍRITO DE HANUKÁ


RUTH,a moabita, e o ESPÍRITO DE HANUKÁ
por Pietro Nardella-Dellova

especialmente dedicado à Denise

Então, uma mulher atravessou a Piazza Duomo, em Milano, com o rosto banhado em lágrimas e em ansiedades que vêm de épocas remotas, vibrantes e presentes entre as letras da Torá. Ela estava desnorteada e aflita, com fome e sede – em uma busca que nasce nos recantos da alma e vai se agigantando, entre pedras e areia seca, com soluços tão intensos que atravessaram mares, ressoando no espaço e tocando, de leve, na alma do universo e na face multicolorida da Ruach HaElohim.

Estas caminhadas que se fazem de dentro, do entranhável e indevassavel universo da própria subjetividade, em direção à luz, ao Éden, à liberdade, ao Sinai, à terra de onde brotam leite e mel, e se abençoam com o vinho e o pão, não podem ser compreendidas em toda sua extensão, substância, calor e intensidade, nem, de fato, ser avaliadas por quaisquer outras pessoas, individual ou coletivamente, com ou sem autoridade jurídica. De repente, uma pessoa se levanta em contexto adverso, contra fluxos de maldição e obscuridade, exatamente no meio do nada, sufocada em todos os sentidos pela aspereza e insipiência religiosas e, movida pela energia da subjetividade, levanta os olhos para enxergar longe e adiante, para buscar sentido e profundidade, para envolver-se por um manto legado por Moshè, e para conhecer a partitura de uma canção ensinada por Miriam e, ainda, ver as mãos de Aaran se unirem em bênção sacerdotal.

E tanto faz que este choro seja derramado em Milano ou nos Montes de Moav, porque os processos não dependem da vontade humana. Aqui, em Milano, a cola asfáltica nascida na insensatez e ignorância de Nicéia. Ali, em Moav, o cheiro de enxofre concentrado na caverna de Lot! Mas, é possível que do enxofre e fedor procedentes dos ventres moabitas nasça, quem sabe, a bisavó do maior e mais encantável dos reis que tivemos, o rei David! É possível que dali, exatamente dali, germine a semente que fará nascer o Mashiach para, finalmente, abençoar o mundo com sua Cátedra de uma Torá por dentro!

Porque a Torá é, em um mesmo tempo, tanto elixir quanto veneno, vida e morte, caminho e bloqueio. Ela mata e ela dá vida! Depende dos comportamentos, das decisões, de um ato gandhiano de „satyagraha“, ou seja, de estar resoluto com a verdade! Príncipes levitas, como Korach, podem não suportá-la, e herdeiros como Lot, tropeçarem. Mas, moabitas desprezadas como Ruth podem compreendê-la com profundidade e fazerem um movimento em sua direção! Ao final, serão demonstrados os movimentos de dentro para fora, e de fora para dentro. Ao final, o Eterno – e somente Ele – passará e refinará em sua peneira o material com que Mashiach construirá seu reino e determinará o Malkhut!

A voz da Torá ecoa entre miríades, rasgando mares, destronando faraós, talhando pedras, transformando escravos em homens e mulheres, estabelecendo pastores, pequenos e tímidos, em reis cujo nome mantém-se para sempre. A voz da Torá ecoa em determinadas almas e faz com que voem, e a mesma voz arrebenta tímpanos. A mesma voz transforma reis em animais ou em loucos!

O que nasce em determinadas almas, em sua subjetividade, é a identidade com a Torá. O que morre é ficar tempo demais olhando o deserto, e brincando de esconde-esconde, entre uma Kehila e outra! Quem pode rasgar em pedacinhos o manto de Moshè? Quem pode desafinar a partitura de Miriam? Quem pode ousar levar fogo estranho, em estupidez e de costas à Aaran, para dentro do Tabernáculo? Qual dos irmãos é digno para sepultar Rabenu? Quem pode constranger Avraham a um passo ou a um cordão, a uma cidade ou a uma tumba? Quem pode ensinar à Rivkah qual dos filhos é o príncipe e qual é o tolo? Quem pode chorar mais intensamente de amor que Rahel? E qual dos irmãos pode tirar Yossef do poço, profundo e indigno, e quem pode ouvir-lhe o pranto e o choro? Quem pode dizer: basta ao crime!? Quem pode entender o gemido diuturno dos Profetas? Quem pode dar a sua vida sobre Masada? Quem pode erguer dos humanos infernos os seis milhões mortos – muitos levados ao matadouro, mas outros, deixados, vendidos e trocados – e, diante daqueles, quem pode se colocar com uma espada? E destes, quem pode voltar e rezar o abandono e o desprezo dos pares?

Rapidamente, muito rapidamente, idiotas do leste e oeste, enlouquecidos em sua ignorância, foram se esquecendo da história. A História que não começa ali, mas vem de longe, de muito longe! Se cobriram de vaidade e desvario, de arrogância e insensibilidade, atacando uns aos outros, aconselhando guerrilhas religiosas e afronta às letras da Torá!

Nada pode ser acrescentado à Torá! Nada pode ser subtraído à Torá! E as inclinações mais acentuadas para o bem ou para o mal não dependem de um DNA, mas de uma decisão-ação. Algumas pessoas, brancas ou negras, do sul ou do norte, do leste ou do oeste, decidem ser boas e decidem praticar atos de bondade. Outras, com maior ou menor erudição, paramentadas ou não, decidem ser más e decidem praticar atos de maldade!

Quem vem de berço diverso e caminha em direção à Sinagoga, diz não à sua história, converte-se, e chora honestamente à porta de uma Kehilá ou em qualquer outro lugar, pode, não poucas vezes, interromper a queda das muralhas de Jerusalém, esconder espiões em Jericó ou, simplesmente, aconselhar Moshè aumentando-lhe os dias de descanso e reflexão. Estas pessoas merecem o conforto de um abraço e um olhar de hospitalidade e delicadeza! Elas virão de longe com o espírito de Ruth, a moabita, dejuntamente com o remanescente dos filhos de Ya`akov, e elas pegarão em pás e enxadas, à sombra de uma Maguen David, e nos ajudarão a reerguer o Beit HaMikdash para as perpétuas Festas de Hanuká, para a Cátedra de Mashiach e para a Glória do Eterno!

E o sentimento que vem, assim, não pode ser explicado na Bimá, porque está além da Bimá – está dentro do Aron HaKodesh, em pergaminho milenar. E dalí, apenas dalí, sopra uma Mitzvá que impõe, de modo categórico e perpétuo, a obrigação de todo e qualquer judeu a „não ofender os sentimentos de um convertido“, pois, para os convertidos o amor deve ser dupla e sonoromente dedicado! (Shemot 22:20, Vaikrà 19:18 e Devarím 10:19 – 63 negativa e 243 e 431 positivas).

Sankt Gallen, Schweiz (Svizzera) 9 dicembre 2009 (22 Kislev 5770)
*
© Pietro Nardella-Dellova. É Professor e Consultor de Direito. Mestre em Direito pela USP. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP. Pós-Graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor das Obras: AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92) e FIO DE ARIADNE (org./co-aut., 94), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS, SP: Ed. Scortecci, 2009, 312 p..
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e para contactar utilize o e-mail: professordellova@libero.it*

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

SHABAT VAYICHLACH וַיִּשְׁל֨ח ou, ELE ENVIOU

ברוך ה"ה


SHABAT VAYICHLACH וַיִּשְׁל֨ח ou, ELE ENVIOU
por Pietro Nardella-Dellova

Meus caros chaverim e chaverot: Shalom Alechem!

Desejo-lhes um Shabat Vayichlach com pleno de Shalom.

Nesta Parashá Vayichlach וַיִּשְׁל֨ח (e ele enviou) de Bereshit (Gen) 32:4 a 36:43, Ya`akov avinu, volta à terra e esta prestes a se encontrar com seu irmão Esav, de quem obteve, anos antes, a primogenitura por direito "qualitativo".

E, após mandar notícias suas para o irmão, recebe a informação por seus funcionários de que ele vem ao seu encontro (ou de encontro) com 400 homens!

Quatro aspectos nesta passagem (32: 4 e ss) devem ser ressaltados:

1. uma informação de conteúdo adverso a Ya`akov (32:7);
2. que gera um profundo temor e aflição em Ya`akov (32: 8);
3. que o leva à consciência de seu relacionamento com HaShem e de seu objetivo (32: 10-13);
4. e à atitude de sabedoria e estratégia de enfrentamento (32: 14 e ss)


Talvez quiséssemos que tudo fosse fácil, tranqüilo e acessível. Talvez quiséssemos que não houvesse oposições nem inimigos. Mas, para nosso bem e para nosso crescimento, o Eterno não apenas nos apresenta desertos, mas, oposições multifacetadas. Ou seja, temos diante de nós um ambiente, um espaço, de exercício fenomenal para desenvolvermos nossa capacidade de enfrentamento. E temos, também, oposições e inimigos de variadas cores, pesos e medidas.

Nosso pai Ya`akov vivia, muitos anos antes, em seu conforto de estudante da Torá, por isso mesmo era chamado de Ish Tam, ou seja, um homem de estudo, um estudioso (25: 27).

Mas, embora os estudos nos tragam imenso e indizível prazer, não vale por si mesmo, enquanto estivermos em curso de construção e movimentação, em devir como diriam os gregos, ou em formação, como ensinam os sábios judeus. Haverá um tempo, quando Mashiach nascer, em que os estudos valerão por si mesmos pois estarão na completude sefirótica e seguirão, normalmente, os vinte e dois caminhos que ligam cada uma das sefirot! Os estudos, no presente momento, servem para o embate, para a concretização, para a travessia daqueles desertos e desta galut!

Por isso mesmo, o encontro entre Ya`akov e Esav determinam duas forças e suas naturezas de ação. De um lado, a força e habilitade de um caçador, Esav. De outro, a sutileza e sabedoria aplicavel de Ya`akov. Mas, ambos cresceram juntos, conforme revela a Torá (25: 27).

O fruto do conhecimento é sua exata aplicação no mundo da praxis. O conhecimento leva à consciência do estado em que nos encontramos, a força de nossos inimigos, nossos medos e pavores, nosso objetivo e relacionamento com HaShem e, sempre, a uma reflexão de comportamento e estratégia de ação! Não nos tornamos heróis com o conhecimento e isso é particularmente verdadeiro no caso de nós judeus, mas, o tempo que dispomos aos estudos em nossas tendas, assim como Ya`akov fazia (25:27) apenas será valorado diante das (e de todas) as dificuldades que encontramos entre nossos passos iniciais e o objetivo a ser alcançado.

Ser um Ish Tam (homem de estudos) refere-se com singular especialidade aos Estudos da Torá, de seus fundamentos, de suas Mitzvôt e de tanto quando se possa alcançar em cada uma das Letras que a compõem! Geralmente, os que estudam, fazem-no em busca de um diploma ou de um status social. Como judeus, estudamos para nossa formação e, por isso mesmo, a Torá se traduz por Instrução, não sendo à-toa que a Torá escrita foi dada em um ponto inicial da caminhada entre o Egito e a Terra prometida a nossos pais!

Um dos pontos fundamentais dos estudos realizados em face da Torá é a capacitação psicológica do „ish tam“. Ou seja, nela Torá (e, no caso de Ya`akov estamos falando de uma Torá Oral apreendida em seu tempo pelo Mestre de Justiça (o Melk Tzedek) Shem, filho de Noach), encontramos todos os perfis psicológicos, emocionais e intelectuais, bem como do trato físico e de seus respectivos e, acima de tudo, dos comportamentos sociais. Seu estudo nos ilumina e nos faz conhecer as espirais comportamentais humanas.

Por isso mesmo, Ya`akov analisa, verifica, reflete e decide a estratégia de enfrentamento com que encontrará seu irmão Esav, conforme Bereshit 32: 14-22. E, após este mesmo pasuk (versículo) 22, Ya`akov reserva-se a uma luta maior, solitário e na noite inteira, em busca de um resultado ainda maior, isto é, o de ser reconhecido pelo estranho com quem lutou (possivelmente o mesmo Bi`ilam que, mais de dois séculos depois será vencido definitivamente por Moshè rabenu!) de forma cabal como „Isra`el“ (o príncipe do Eterno ou o que luta para vencer).

Ao final, verificamos que muitas são as situações de oposição e de conflito, muitos são os inimigos, mas, a cada um devemos dedicar uma estratégia. Com cada um lutamos, mas de modo diferente e estrategicamente variável!

No caso deste trecho, Bereshit 32, que vai do pasuk 4 ao 22, o eminente perigo que se apresenta é Esav com seus 400 homens (32:7 e 33:1), para o qual existe uma determina reflexão e a disponibilização de um certo recurso material. Do pasuk 22 ao 33, a luta é solitariamente outra – a de ser reconhecido como um príncipe ou como alguém que saiu para vencer! No primeiro caso a defesa não é apenas de Ya`akov, mas de sua família. No segundo, trata-se de uma luta para além, de cuja vitória depende a nossa própria e individual existência. Se na primeira situação ele reflete sobre seus medos, pensa, e orienta seus funcionários e familiares, no segundo, ele deve ficar só, imensamente só, profundamente só, em uma luta, agora, individual, onde realmente verifica suas forças interiores e sua lucidez em saber-se como um Ish haElohim (homem de D-us) e concentrar sobre si o reconhecimento de outras forças, igualmente, poderosas!

Em termos cabalísticos, Esav e seus 400 homens em nada mais resultam que em „bet“, a casa/espaço que deve ser ocupada, a expressão da dualidade em relação a Ya`akov e seus melachim (mensageiros), que resultam em força, proveniente da Torá, em „het“, que transcende o tempo/espaço para a verdadeira luta que ocorre com o homem estranho (pasukim 22-33). Ali, Ya`akov tem reconhecido seu status de „Isra-el“, ou seja, seu „yod“ e seu posicionamente número um!

Nas Bênçãos do Eterno,

Rav Pietro Nardella-Dellova

Sankt Gallen, Svizzera, 4 dezembro 2009 (17 Kislev 5770)

© Pietro Nardella-Dellova. É Professor e Consultor de Direito. Mestre em Direito pela USP. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP. Pós-Graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor das Obras: AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92) e FIO DE ARIADNE (org./co-aut., 94), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS, SP: Ed. Scortecci, 2009, 312 p..
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