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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Midrash sobre a Parashá Shemot ou, Elohim e as Forças da Criação

Midrash sobre a Parashá Shemot ou, Elohim e as Forças da Criação!
por Pietro Nardella-Dellova
da Sinagoga Scuola – Beit Midrash

Livro/Parashá: Shemot: Shemot (Êx) 1:1 a 6:1

B"H

“… e os filhos de Israel estavam ainda gemendo por causa de seu jugo. Quando eles gritaram em virtude de sua escravidão, seus apelos vieram diante de Elohim (23). E Elohim ouviu seus gritos, e Elohim lembrou-se de seu Pacto com Avraham, Itzchak e Ya’akov (24). E Elohim viu os filhos de Israel e interessou-se Elohim (25)…” (Shemot 2: 23-25)

Esta Parashá, Shemot (nomes), inicia o livro com o mesmo nome, o Segundo Livro da Torá!

Antes o Eterno era parte da experiência e da historia individual de alguns, entre os quais, homens da envergadura de Seth, Enosh, Chanoch, entre outros, até nossos patriarcas Avraham, Itzchak e Ya’akov e, então, sendo invocado individualmente, como em Bereshit 4:26 e, depois, conhecido como sendo o D-us dos patriarcas, indicados pelos nomes! Mas, após anos no Egito e a situação de servidão e opressão, surge um elemento novo a partir dos filhos de Ya’akov, cujos nomes estão no inicio desta Parashá (v. 1:1-6). Surge um povo, surge uma nação, submetida e oprimida pelo Faraó! Surgem (1:7) os B’nei Yisrael (os filhos de Israel). Passagem impropriamente traduzida para varias línguas como “israelitas”. É melhor manter o que está em hebraico, ou seja, a expressão B’nei Yisrael (filhos de Israel) e não israelitas!
A coletividade chama-se “b’nei Yisrael” e isso lhes será luz e libertação adiante.

Não apenas israelitas, mas, filhos de Israel! E sua situação, uma espécie de Galut antecipada, é tormentosa! Por isso mesmo, os filhos de Israel gemiam diuturnamente. Viviam em dor profunda e em estado de desamparo, um longo tempo (v. 2:23) de gemido, de estado de decadência e fragilização. E mantiveram-se em gemido continuado.
Mas, um dia, o estado passivo de “gemido” deu lugar a um estado “ativo” e, assim, fez-se um movimento, deu-se um passo efetivo, ainda que tênue, mas dentro de um contexto de verbo, de ação, de proatividade. No mesmo 2:23 encontramos que os filhos de Israel, deixando de “gemer”, “gritaram” e “apelaram”! E somente quando eles gritaram, os seus apelos chegaram diante do Eterno. Mas, não gritaram apenas – gritaram em direção ao Eterno, o D-us de seus pais!

E nesta mesma passagem aparece por cinco vezes a palavra Elohim (אלהים aspecto da Justiça do Eterno). Em nenhum momento aparece aqui a expressão das quatro letras que formam o Tetragrama (יהוה aspecto da Misericórdia do Eterno). Neste sentido, nos recordamos que, ao criar o mundo o Eterno também se manifestou como Elohim. Aqui, em Shemot, os filhos de Israel estão pedindo "justiça" contra a opressão a que foram submetidos! Em Bereshit 1:1 a 2:1-3, desde o primeiro movimento de Bereshit até a criação do Shabat, aparece apenas a expressão Elohim, voltado para organização dos elementos. E, somente após tudo feito é que a Misericórdia se junta à Justiça (Adonai יהוה Elohim אלהים), em Bereshit (Gên) 2:4 e, a partir de então, com a dupla expressão do Eterno, ou seja, Misericórdia/Justiça (Adonai יהוה Elohim אלהים) o homem, integral, é formado (Bereshit 2:7).

No caso desta Parashá, o que ocorre com o grito “dirigido” e canalizado, o grito que supera o estado doentio e inerte de “gemido constante”, e em absoluta conexão com os patriarcas e com o D-us de seus pais “O D-us de Avraham, Ytzchak e Ya’akov” é que as mesmas forças da criação, em seu aspecto de Justiça (Elohim) aparecem, pois o Eterno dirige as mesmas forças não, ainda, a favor dos filhos de Israel, mas contra a opressão e opressores egípcios. Na superação do gemido pelo grito e, ainda, na movimentação do Eterno (Shemot 2: 23-25). Por cinco vezes encontramos neste trecho a expressão Elohim.

Isto significa dizer que todas as forças da criação estavam concentradas como repercussão do grito dos filhos de Israel, em valor/intensidade dos sete Espíritos do Eterno, pois as cinco vezes Elohim, constituem-se Sete (a palavra Elohim vale cinco, que é a letra heh ה, e seu resultado é Sete). No início da criação é a Ruach (רוח) Elohim (אלהים)(Bereshit 1:1) que organiza tempo/espaço. Ruach é o elemento feminino da criação e seu valor é sete (רוח). São os Sete Espíritos do Eterno conforme Yeshayahu (Is) 2:11. Portanto, temos a multifacetada força da criação, multiplicativa, com bênçãos multiplicativas, desde Bereshit 1:1 até o Shabat, em 2:3. Quando multiplicamos o valor de Ruach pelo valor de Elohim, obtemos 35. Pois são exatamente 35 vezes que a expressão Elohim aparece em todos sete períodos da criação. São as forças da criação, os Sete Espíritos do Eterno, simbolizados pela Menorá (castiçal de sete luzes/velas) e são, conforme o Profeta Yeshayahu: o Espírito de Adonai, o Espírito de Sabedoria, o Espírito de Discernimento, o Espírito de Conhecimento, o Espírito de Força, o Espírito de Conselho e o Espírito de Temor ao Eterno.

O Eterno se importa com o grito dirigido, de forma consciente e determinada, pelos filhos de Israel, e um movimento é feito em direção ao povo de Israel, mas para estabelecer justiça primeiramente. A expressão Elohim, na passagem comentada por mim, multiplica-se por si mesma cinco vezes e resulta em Sete, concentrando as mesmas Forças da Criação para estabelecer Justiça. E, na seqüência, aparece diante de Moshe rabenu (Moisés, nosso mestre) logo na passagem posterior (Shemot 3:2) o aspecto da Misericórdia do Eterno. Aparece o Malach מלאך Adonai יהוה(Emissário do Eterno). Malach מלאך equivale a dez, a plenitude da manifestação do Eterno, porque Moshè seria o responsável por receber e ensinar a Torá, a Instrução. Ou seja, ao grito que repercute diante do Eterno, encontramos, primeiramente, a Justiça contra a opressão/opressor (Elohim) e, na seqüência, a Misericórdia (Adonai) para, algum tempo depois, apresentar a Torá: Instrução! A palavra Moshè משה tem como valor, tanto o doze, representando a unidade das doze tribos de Israel em torno da Torá, como três, representando o ideal dos patriarcas de Israel (Avraham, Itzchak e Ya’akov).

Tanto em Bereshit 1:1 a 2: 1-3, como nesta passagem, Shemot 2:23 a 3:1-6, vemos a conexão da efetividade criativa com conclusão na Misericórdia. No primeiro momento, o Eterno, com sua multiplicativa Ruach Elohim cria os setes períodos e, finalmente, o homem especial. Neste caso, o Eterno, com a mesma Ruach Elohim está criando a base de uma nação. Antes, ele era o D-us individual, agora será o D-us de uma nação. Desde Adam, o Eterno ensinou a Torá (oral), aquela da percepção individual, de formação individual. Agora, Ele dará a Torá (escrita) responsável pela formação e unidade de todos os filhos de Israel. Podemos, a partir deste momento, fazer o movimento objetivo em direção ao processo de libertação de nós e de nossos filhos.

Em síntese, quando o Eterno cria os sete primeiros períodos com Justiça e conclui com Misericórdia/Justiça. Nesta passagem, novamente, o grito desperta a Justiça, mas o devir (movimento transformador) ao chamar Moshè, é feito com Misericórdia! Após o movimento gerado pelo grito dos filhos de Israel, veremos de forma efetiva as Dez Pragas sobre os opressores e as Dez palavras sobre os oprimidos! No primeiro caso, a Justiça; no segundo, a Misericórdia!

Como seres humanos, vivemos em muitos conflitos, opressões e angústias que, comumente, são convertidos em gemidos continuados que não fazem além de aumentar o sofrimento, pois o gemido não traz em si uma força libertadora, mas, apenas um estado de autodestruição e abatimento. Podemos passar anos de nossa vida no estado de embriaguez emocional, no resmungo noturno, ou ainda, diuturno! É um lamentável desperdício de energia! E quando nos conscientizamos do que somos, ou de onde viemos, das nossas energias sendo sugadas pelo opressor, do nosso tempo sendo utilizado pelo explorador, da nossa vida esvaindo-se de nossa mão.

Quando amargamos a experiência de nossos filhos sendo condenados à morte, como o que ocorreu naquele tempo, conforme Shemot 1: 15-22, em relação às crianças hebréias, algo em nós pode mudar. E, vencemos o estado de letargia do resmungo noturno por ações mais objetivas, positivas. A isto chamamos proatividade. E uma voz em nós clama por Justiça, e quando esta voz em nós clama por Justiça, as forças luminosas da criação se concentram sobre nós! Mas, também recebemos ajuda horizontal, das pequenas luzes, daqueles que estão ao nosso redor, daqueles que caminham conosco e se incomodam com a injustiça imposta sobre nós. É a Luz e são as pequenas luzes! É o Eterno e são aquelas pessoas formadas em seu coração e intelecto, em sua alma e seu espírito, por critérios e princípios de Justiça.

Na dimensão vertical, por cinco vezes aparece a expressão Elohim com um heh ה aderente explosivo formando a inteira expressão האלהים (DEZ!) quando do grito dos filhos de Israel. Na dimensão horizontal, das pequenas luzes humanas, ou seja, daquelas pessoas que se incomodam com a injustiça e agem a fim de coibi-la, emudecê-la ou desfazê-la, pois não há, nem no plano vertical (O Eterno) nem no plano horizontal (As Pessoas) justiça discursiva, justiça de sentimentos bons, mas justiça de ação, de efetividade! Assim, na dimensão horizontal, aparecem pessoas com Justiça efetiva, e no caso dos hebreus, para resistir ao mandado do Faraó de condenação à morte das crianças, duas mulheres, Shifrá שפרה e Puá פועה simplesmente agiram para fazer Justiça em Shemot 1: 15-22 (seus nomes aparecem ligados a Elohim) e, alguns anos depois, o próprio Moshè, então, um jovem homem, age com Justiça no episódio em que mata um egípcio, Shemot 2: 11-12. Seu nome, mais adiante está ligado à Adonai (Misericórdia).

Mas, quando nos movimentamos (devir) para superar a curva descendente da injustiça e para por fim a períodos de esgotamento físico, emocional, intelectual e social (corpo, alma, espírito e relação eu-tu), é sobremaneira condicional que o façamos com consciência. A consciência é o motor, é a alavanca, é o passo positivo adiante. Com ela sabemos a quem nos dirigir, com ela canalizamos energia ao ponto certo, com ela não nos perdemos na enxurrada idolátrica ou nos desvarios emocionais. E quando sabemos o que estamos fazendo ou necessitando, e, principalmente, a quem nos dirigimos, é seguro que alcancemos nosso propósito.

O Eterno e o nosso próximo! O vertical e o horizontal. Esta relação vertical/horizontal não escapa nem da análise mais superficial das Luchot HaBrit (Pedras da Aliança), sendo cinco Palavras para a dimensão vertical e outras cinco para a dimensão horizontal.

Se lemos as Dez Palavras de forma proativa, chegamos à ação que se espera de nós e à alma da Torá. Eu explico melhor.

As Dez Palavras, inicialmente em Shemot 20: 1-14, são: Eu Sou o Eterno...; Não tenhas outros deuses...; Não tomes o Nome do Eterno em vão...; Lembra/Guarda o Shabat...; Honra teu pai e tua mãe...; Não cometas homicídio...; Não cometas adultério...; Não roubes...; Não atestes como falsa testemunha...; Não tenhas inveja...

Lendo, então, de forma proativa, devemos nos dirigir ao Eterno lembrando Seu aspecto Misericórdia/Justiça, pois nesta primeira Palavra aparecem Adonai Elohim, como Luz vertical. Este caminho que nos leva à compreensão do Eterno não permite a intermediação ou criação de deuses quaisquer, como segunda Palavra. Ao avançarmos no vertical, devemos fazê-lo com plena consciência do que significa invocar Justiça e Misericórdia. E, portanto, lembrar e guardar o Shabat, pois nele a verticalidade é expressivamente clara! E na quinta Palavra, a que diz respeito ao pai e à mãe, encontramos o ponto inicial da verticalidade, ainda, em relação à Misericórdia e Justiça, pois mãe tem relação direta com a Ruach (elemento feminino de justiça criativa do Eterno) enquanto pai com a Misericórdia. Portanto, nas primeiras cinco Palavras o vertical impera. Enquanto isso, no plano horizontal, muito mais que uma série de comportamentos que importam em um “não fazer algo”, temos uma leitura mais precisa da proatividade. Não apenas não cometer o homicídio, mas promover a vida; não apenas não cometer adultério, mas criar um ambiente digno e afetuoso de relação perfeita; não apenas não roubar, mas agir de tal forma a que seu pão seja justo em todos os sentidos; não apenas não atestar como falsa testemunha, mas intervir contra o falso testemunho e não apenas não ter inveja, mas apoiar e ajudar o próximo a ter, a construir e a estabelecer seu universo de bens necessários.

E por que sabemos disso? Porque o Eterno se manifesta em Misericórdia e Justiça, porque o Eterno atua, faz e realiza. Vejamos. Não basta entender e compreender o Eterno como o D-us que nos tirou da casa da servidão, é preciso não ceder à inclinação aos deuses (bons ou maus). É preciso não invocar o Eterno sem consciência plena. É preciso compreender que Ele criou o Shabat e vivenciar, experienciar o Shabat, viver o Shabat que, neste caso, aparece como a organização do tempo vertical, diante do tempo horizontal (o sagrado e o profano) e o pai e a mãe como elementos verticalizadores da nossa ação. No mesmo sentido, ou seja, da proatividade, encontramos a horizontalidade das Pedras da Aliança. Pois muitos poderiam dizer: “eu não dou falso testemunho e nem pratico o homicídio...”, mas a questão seria compreendida de forma passiva, quando sabemos que diante do Eterno o procedimento deve ser ativo. Assim, a passividade é não cometer homicídio, mas a proatividade é fazer com que a vida seja protegida. E assim por diante...

No caso das parteiras Shifrá e Pua, elas não apenas não mataram as crianças, mas promoveram a vida! No caso de Moshè, a sua proatividade exigiu que defendesse o hebreu das mãos do egípcio! No caso de Pinchas (Bamidbar “Núm.” 25: 6-8) quase oitenta anos depois, foi uma ação contra a injustiça do lashon hará feito contra Moshè rabenu...

Voltar-se para a Luz, para o Eterno, e para as pequenas luzes, nossos próximos, a fim de aplicar nesta relação vertical/horizontal todos os princípios norteadores de nosso comportamento e ação para, em tempo eventual, solicitarmos a ajuda do Eterno e dos nossos próximos. Sem o diálogo que se efetiva com o vertical e horizontal não podemos sobreviver, muito menos viver uma vida de plenitude!

Shemot significa “nomes”. E o diálogo entre EU-TU exige nomes. Se tivermos o Nome do Eterno, ainda que não o utilizemos por zelo, e soubermos quem Ele é, teremos o diálogo. Se tivermos o nome de nossos pais Avraham, Ytzchak e Ya’akov, e de nossas parteiras, Shifrá e Puá, e de Moshè, teremos o diálogo horizontal plenificado. Assim, é preciso criar um ambiente dialógico com o Eterno e com aqueles que nos apoiarão, finalmente, na luta contra a morte e a opressão!

Sadle Brook, NJ, 10 janeiro, 2010

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Nas Bênçãos

© Pietro Nardella-Dellova. É Coordenador de Curso de Direito. Professor Universitário, Escritor e Consultor de Direito. Mestre em Direito pela USP. Mestre em CRE pela PUC/SP. Pós-Graduado em Direito Civil e em Literatura. Formado em Direito e em Filosofia. Mestre na Sinagoga Scuola. Membro da UBE – União Brasileira dos Escritores. Autor dos livros AMO (89), NO PEITO (89), ADSUM (92), FIO DE ARIADNE (org./co-aut. 94), A PALAVRA COMO CONSTRUÇÃO DO SAGRADO (98), A CRISE SACRIFICIAL DO DIREITO (2001) e, agora, do A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS, Ed. Scortecci, 2009.

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